sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Olha-me _ Filipe Chinita








vem olhar-me nos olhos.

vem de novo olhar-me 


no fundo dos olhos 


meus.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Longe de Mim - João Feliciano








Sinto-te perto de mim na noite escura ouço os teus passos
Eu já não sou quem tu procuras estou recompondo os meus pedaços


Sinto o teu hálito nos meus cabelos um sopro frio cortante e forte
Os meus pedaços não quero perdê-los quero juntá-los vencer a morte

Porque rondas as casas da minha rua e me falas como se ainda fosse tua
Como se a minha alma não existisse ou eu estivesse nua

Tanta gente sem rosto ou sabor tantas noites perdidas
Vai e não voltes deixa-me curar em paz as minhas feridas

  


PUBLICADO COM A AUTORIZAÇÃO DO AUTOR. A TRANSCRIÇÃO DEVE MENCIONAR O AUTOR (JOÃO FELICIANO) E A FONTE DE PUBLICAÇÃO. 



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros_Mª do Rosário Pedreira


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


in "A Casa e o Cheiro dos Livros"

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Gosto-te __Joaquim Pessoa

Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. "Na-na-na, na-ô... Na-na-na, na-ô... na nô",
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas "longe" é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

sábado, 7 de maio de 2011

NÃO VOLTEI A ESSE CORPO___Mª do Rosário Pedreira


Não voltei a esse corpo; e não sei

se aqueles que o vestiam antes e depois

de mim souberam nele o verdadeiro calor

...e lhe conheceram os perigos, os labirintos,

as pequenas feridas escondidas. Não voltarei

provavelmente a sentir a respiração

palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas

rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito

também, às vezes.



Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,

o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.

E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me

recolheu,

porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.



Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto

trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.

sábado, 16 de abril de 2011

Mendigo de Amor __ José Dimas

Já fui mendigo de Amor,

Em tempos que já lá vão,

Eu já lhe conheço a dor,

Não vou mendigar mais não,



Já não peço ao meu Amor,

Mimos carinhos e beijos,

Conhecemo-nos de cor,

Ela sabe os meus desejos,



E Amar, presentemente,

Nesta ânsia, todos os dias,

Do Amar perdidamente,



Com todas as euforias,

É um sentimento presente,

Um despertar… de alegrias…


(Publicado com a autorização do autor. A transcrição deve mencionar o autor (José Dimas) e a fonte de publicação)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A envolvência do teu Abraço _ Fátima Ramos

A meu PAI

Nesta distância que o tempo e a morte impuseram,

nesta tormenta em que navego,

nesta solidão em que as saudades

da tua voz, do teu sorriso trocista mas cheio de carinho,

das tuas palavras cheias do mais refinado humor

onde se escondia um profundo e imenso amor,

Sinto a envolvência do teu Abraço meu Pai,

Como se estivesses aqui comigo,

sussurrando-me o caminho a seguir,

os passos a tomar

e dando-me a coragem e força necessária

para aguentar firme os ventos e as chuvas,

o frio deste inverno que me gela as mãos,

o coração e a alma,

Lembrando-me que há sempre um novo sonho

depois daquele que se quebra e nos impele a Viver,

mesmo quando só nos apetece esconder do mundo

no conforto da escuridão.

Que há sempre uma alegre Primavera

após o mais frio Inverno

e que mesmo enquanto este dura,

o raio de sol que espreita por entre as nuvens

e derrete a mais sólida neve que caiu no chão...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Asa de Borboleta _ Cecília Meireles

No mistério do sem-fim

equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Antes de um lugar há o seu nome_Maria Rosário Pedreira

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda

a viagem até ele, que é um outro lugar

mais descontínuo e inominável.


Lembro-me

do quadriculado verde das colinas,

do sol entretido pelos telhados ao longe,

dos rebanhos empurrados nos carreiros,

de um cão pequeno que se atreveu à estrada.


Íamos ou vínhamos?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Mãe _ João Negreiros


A mãe

Quando crescer quero ser a mãe

só p’ra ser a minha

e me dar carinho sem ter que mo pedir

quero morrer p’ra ser a mãe de alguém

mas com as mãos a voz e o cheiro da minha



mãe

és a minha mãe

antes não fosses

antes fosses a mãe de todos

p’ra que todos fossem felizes

se fosses a mãe do mundo o mundo era melhor

e eu não existia

mas acredita que não me importava

porque haveria de viver no som dos teus beijos

no fresco da tua mão contra a testa febril

no olhar que encontra o brinquedo

na luz que me apaga o medo



haveria de viver no teu coração como um filho que não nasceu

e que morre todos os dias para provar que sempre te amou



in "o cheiro da sombra das flores"

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Defesa do Poeta _ Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs na ordem ?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho !

a poesia é para comer.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Hoje sorriem-me a terra e os céus _Gustavo Adolfo Bécquer



Hoje sorriem-me a terra e os céus;

sinto no fundo da minha alma o sol;

eu hoje vi-a..., vi-a e ela olhou-me...

Creio hoje em Deus!

Ama-me...Incondicionalmente _ Dr.Jeckyl.


"Ama-me quando eu menos o merecer,
porque será nessa altura que mais necessitarei"

- Dr.Jeckyl.











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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O cair das Máscaras__Menina do Alto da Serra


Caiu o pano, cairam as máscaras...
repetes algures o enredo desta peça
que escreveste um dia, encenaste, representas e
que tens em permanente exibição,
mantendo o mesmo elenco bolorento,
com excepção da primeira figura
feminina.

Porque precisas dela para sobreviver,
dos afectos, das atenções
que alimentas sem intenção
de guardar e velar,
Como bom Corsário
que és não sabes construír
apenas pilhar e roubar.

Vais, assim, assumindo em sucessivos e novos palcos,
o papel que se colou
ao teu rosto e alma,
entrando pela calada
da noite nos portos de abrigo
que encontras nesses mares
em que navegas,
conquistando com o teu eterno queixume e
lamento, música e falsas doçuras,
os corações das recatadas donzelas
que te devotam palavras de ânimo e
puro afecto e, envoltas numa cega ilusão,
cheias de pena pelas tuas (falsas) penas,
juram resgatar-te da escuridão
e conduzir-te à luz que finges querer alcançar...

Tudo levas que te alimente o ego, nada dás em troca além
de choro e crueldade
e partes, não como vieste,
mas deixando bem presente o teu lastro de destruição,
nas casas incendiadas, nas donzelas violentadas,
no choro desenfreado,
nas louças partidas e livros rasgados pelo chão,
fruto da tua acção malvada.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

É Outono - Eugénio de Andrade

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Já não necessito de TI _Alberto

Já não necessito de ti
Tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
Tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
De outras galáxias, e o remorso.....
.....um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.
Ofício de Amar

domingo, 30 de janeiro de 2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Valsa de Um Homem Carente__Jorge Palma



Se alguma vez te parecer
Ouvir coisas sem sentido
Não ligues sou eu a dizer
Que quero ficar contigo
E apenas obedeço
Com as artes que conheço
Ao principio activo que rege desde o começo
E mantêm o mundo vivo.

Se alguma vez me vires fazer
Figuras teatrais
Dignas de um palhaço pobre
Sou eu a dançar a mais nobre
Das danças nupciais
E em minhas plumas cardeais
Em todo o meu esplendor
Sou eu, sou eu nem mais
A suplicar o teu amor.

É a dança mais pungente
Mão atrás e outra à frente
Valsa de um homem carente

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

MANCHA ESCARLATE NOS LÁBIOS_Li Qingzhao

Cansada, deixa o balanço,

...Limpa suas mãos delicadas

Como uma flor frágil coberta de orvalho.

Um leve suor embebe sua roupa.


À vista do estranho, no fundo do jardim,

Com meias de seda, o grampo de ouro escorregando dos cabelos,

Cheia de timidez, ela foge.

Mas na porta entreaberta, volta-se,

Como se quisesse respirar o aroma das ameixas verdes.

domingo, 23 de janeiro de 2011

prin:cesa._Pedro Chagas Freitas


chamo-te princesa, vinho do meu porto – senhora morena que me caiu no goto.

e não sei que passo dar,que fuga querer – não sei sequer como te desejo ter.

sei que te sei e que te quero saber: à lua que se enche de voz, às lágrimas que se erguem na foz.

não sei o que quero – mas sei que não quero: cúmplice por crescer, carinho por vencer.

não sei o que quero – mas sei que me quero:no mundo do teu fundo, na curva da tua estrada – na silhueta da tua chegada.

chamo-te princesa, vinho do meu porto – e é na sombra do teu sorriso que em sorriso me conforto.


(extraído da Página do Facebook do Autor)