O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que até agora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Deixem-me sonhar - António Arnaut
Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho,
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.
Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.
in Outros Sinais, poema 17
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Noite Vagabunda de Luar - António Arnaut
A minha angústia é asa quebrada
da noite vagabunda de luar
que vem mansamente pela madrugada
bater-me à porta para me acordar
domingo, 22 de agosto de 2010
Não escrevas - António Arnaut
Não escrevas. As palavras
Já não sublevam a lembrança.
Se queres acordar essa louca
aventura de criança,
manda-me apenas o espelho de bolso
onde desenhavas
a rubra flor da tua boca,
e ambos cabíamos
como num retrato miniaturial
do paraíso.
Manda-mo sem demora
esse espelho oval:
quero ver se o teu sorriso
ainda marca a mesma hora.
in "Outros Sinais", poema 37
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