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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Gloria Efémera _ António Arnaut

O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.

Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que até agora não vos dei.

Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.

E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Deixem-me sonhar - António Arnaut


Deixem-me sonhar, à procura

dos sinais ocultos do caminho,

É nas asas do sonho que a loucura

faz o ninho.


Deixem-me ser livre como o vento

sem rumo nem compromisso.

O sonho é o lugar do pensamento

insubmisso.


in Outros Sinais, poema 17

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Noite Vagabunda de Luar - António Arnaut



A minha angústia é asa quebrada

da noite vagabunda de luar

que vem mansamente pela madrugada

bater-me à porta para me acordar

domingo, 22 de agosto de 2010

Não escrevas - António Arnaut



















Não escrevas. As palavras
Já não sublevam a lembrança.
Se queres acordar essa louca
aventura de criança,
manda-me apenas o espelho de bolso
onde desenhavas
a rubra flor da tua boca,
e ambos cabíamos 
como num retrato miniaturial
do paraíso.
Manda-mo sem demora
esse espelho oval:
quero ver se o teu sorriso
ainda marca a mesma hora.

in "Outros Sinais", poema 37