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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

NATAL - Manuel Alegre

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As Sete Penas do Amor Errante





Eu não sei se os teus olhos se gaivotas

mas era o mar e a Índia já perdida

as ilhas e o azul o longe e as rotas

minha vida em pedaços repartida.



Eu não sei se o teu rosto se um navio

mas era o Tejo a mágoa a brisa o cais

meu amor a partir-se à beira-rio

em uma nau chamada nunca mais.



Eu não sei se os teus dedos se as amarras

mas era algo que partia e que

ficava. Ou talvez cordas de guitarras

ó meu amor de embarque desembarque.



Eu não sei se era amor ou se loucura

mas era ainda o verbo descobrir

ó meu amor de risco e de aventura

não sei se Ceuta ou Alcácer Quibir.



Eu não sei se era perto se distante

mas era ainda o mar desconhecido

ou Camões a penar por Violante

as sete penas do amor proibido.



Eu não sei se ventura se castigo

mas era ainda o sangue e a memória

talvez o último cantar de amigo

amor de perdição amor de glória.



Eu não sei se teu corpo se meu chão

mas era ainda a terra e o mar. E em cada

teu gesto a grande peregrinação

das sete penas do amor lusíada.