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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

É Outono - Eugénio de Andrade

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Canção - Eugénio de Andrade

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
...Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.


Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.


Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Poema à Mãe - Eugénio de Andrade


No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Se deste Outono - Eugénio de Andrade




Se deste outono uma folha,

apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O teu nome - Eugénio de Andrade

Tua mãe dava-te nomes pequenos, como se a maré os trouxesse com os caramujos. Ela queria chamar-te afluente-de-junho, púrpura-onde-a-noite-se-lava, branca-vertente-do-trigo, tudo isto apenas numa sílaba. Só ela sabia como se arranjava para o conseguir, meu baiozinho-de-prata-para-pôr-ao-peito.

 Assim te queria. Eu, às vezes.




Eugénio de Andrade, in MEMORIA DE OUTRO RIO, 1976

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Hoje roubei todas as rosas dos jardins


Hoje roubei todas as rosas dos jardins

e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Sorriso - Eugénio de Andrade



Creio que foi o sorriso,
O sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

domingo, 4 de julho de 2010

De palavra em palavra...












De palavra em palavra


a noite sobe

aos ramos mais altos


e canta

o êxtase do dia.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Os Amantes Sem Dinheiro...



















Tinham o rosto aberto a quem passava

Tinham lendas e mitos

E frio no coração.


Tinham jardins onde a lua passeava

De mãos dadas com a água

E um anjo por irmão.


Tinham como toda a gente

O milagre de cada dia

Escorrendo pelos telhados,

E olhos de oiro

Onde ardiam

Os sonhos mais tresmalhados.


Tinham fome e sede como os bichos,

E silêncio

À roda dos seus passos.


Mas a cada gesto que faziam

Um pássaro nascia dos seus dedos

E deslumbrado penetrava nos espaços.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Silêncio (divagações sobre "Adeus" de Eugénio de Andrade)




A Eugénio de Andrade faltou-lhe descobrir
que às vezes até o Silêncio se gasta.

Ou que ás vezes ele por si só "gasta"
tudo o demais que ainda existia.

(F.R.- 27-12-2009)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Palavras Interditas - Eugénio de Andrade



As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.