terça-feira, 6 de julho de 2010

O Silêncio Verde














"Que o silêncio

Verde

Da floresta

Não saiba nunca

O silêncio

Negro

Das cinzas".




Matilde Rosa Araújo , "As Fadas Verdes", Civilização Ed.

domingo, 4 de julho de 2010

De palavra em palavra...












De palavra em palavra


a noite sobe

aos ramos mais altos


e canta

o êxtase do dia.

Original é o Poeta















Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutro pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse um abismo

e faz um filho ás palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever um sismo.



Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte faz

devorar um jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.



Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce á rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.



Original é o poeta

que chegar ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia

como se fosse uma mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Poeta castrado não!















Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!



Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.



Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:



Da fome já não se fala

- é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?



Do frio não reza a história

- a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?



E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

- Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!



Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cavalo à Solta




Minha laranja amarga e doce

meu poema

feito de gomos de saudade

minha pena

pesada e leve

secreta e pura

minha passagem para o breve, breve

instante da loucura



Minha ousadia

meu galope

minha rédea

meu potro doido

minha chama

minha réstia

de luz intensa

de voz aberta

minha denúncia do que pensa

do que sente a gente certa



Em ti respiro

em ti eu provo

por ti consigo

esta força que de novo

em ti persigo

em ti percorro

cavalo à solta

pela margem do teu corpo



Minha alegria

minha amargura

minha coragem de correr contra a ternura.



Por isso digo

canção castigo

amêndoa travo corpo alma amante amigo

por isso canto

por isso digo

alpendre casa cama arca do meu trigo


Meu desafio

minha aventura

minha coragem de correr contra a ternura

Anos Dourados...




Parece que dizes

Te amo, Maria

Na fotografia

Estamos felizes

Te ligo afobada

E deixo confissões

No gravador

Vai ser engracado

Se tens um novo amor


Me vejo a teu lado

Te amo?

Nao lembro

Parece dezembro

De um ano dourado

Parece bolero

Te quero, te quero

Dizer que nao quero

Teus beijos nunca mais


Não sei se eu ainda

Te esqueco de facto

No nosso retrato

Pareço tão linda

Te ligo ofegante

E digo confusões no gravador

É desconcertante

Rever o grande amor

Meus olhos molhados

Insanos, dezembros

Mas quando me lembro

São anos dourados

Ainda te quero

Bolero, nossos versos são banais

Mas como eu espero

Teus beijos nunca mais

A Banda Passar...



Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor



A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor



O homem sério que contava dinheiro parou

O faroleiro que contava vantagem parou

A namorada que contava as estrelas parou

Pra ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu

A rosa triste que vivia fechada se abriu

E a meninada toda se assanhou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor



O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu

Minha cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor



Mas para meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou



E cada qual no seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor