segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Epigrama No. 8 - Cecília Meirelles



...Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.

Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,

fiquei sem poder chorar, quando caí.

domingo, 24 de outubro de 2010

Animal Ferido


Magoada, traida e insultada
Por ousares pensar de mim
aquilo que eu nunca fui ou serei.
Porque cobardemente o escreveste e
as palavras escritas eternizam-se no tempo
e criam feridas mais profundas
que aquelas que apenas são ditas
num momento de raiva e sem pensar,

E mais ainda porque me devias conhecer
ao ponto de nem sequer equacionar que
alguma eu fosse capaz de assumir atitudes
cobardes ou umal formadas

Ferida como um animal numa armadilha,
encurralada, numa sére de inverdades,
ataquei por todos os lados.
Disse as verdades que tinha há muito
entaladas na garganta
e com uma crueldade de que me arrependi
logo mal sairam para o mundo e, acredita me
machucam mais a mim que a ti.

Não deitei tudo a perder porque
já nada havia a perder.
Há muito que as tuas atitudes
me foram afastando, dia -a -dia
de ti.

Gostava de acreditar que as minhas palavras de
hoje e de outros dias fossem capazes de te levar
a erguer os braços e lutar por ti (já nem falo de nós).
Mas sei que ums vez mais as deitaste ao vento
E nada farás para sair desse túmulo
em que te confinaste já em vida.

Lamento tanto. Verti as últimas lágrimas. ´
E agora sigo em frente. E já nem consigo chamar-te meu amor.

sábado, 23 de outubro de 2010

As Malas já estão feitas


Acordei assim.
Com uma saudade que já nem é
saudade de Ti.


Acordei assim,
Um vazio imenso,
ou uma leveza etérea,
Lágrimas que não correm
Aceitação da tua partida
E a certeza estranha
Que desta vez, não te verei regressar


Acordei assim, sem querer chorar por ti,
Sem querer lembrar que existes
E que algures a tua alma ainda clama
por mim.

Acordei assim, vazia de sentimentos,
uma imensa vontade de me lançar ao mundo,
colher novos sonhos,
esquecer este amor tão grave e triste,
esta paixão que põe doente,
sair desta escuridão
e viver o sol que algures chama por mim.

(e no entanto...ainda gosto de ti.Tanto).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Vida com controlo remoto

ON
◄◄ rewind
► play

▌▌pause

►► fast forward

OFF

A vida devia vir com um controlo remoto.
ON ou OFF, Play ou Pause, conforme as dores ou alegrias
da vida nos peçam para parar, ganhar forças, continuar.

E que escolhendo OFF ou Pause, ao deixar tudo suspenso,
O mundo inteiro parasse simultaneamente e não corressemos o risco
de um dia, ao clicar ON ou Play, descobrir que a vida nos
passou ao lado e que é tarde demais para recuperar o tempo perdido.

Ao clicar  ◄◄ rewind  os momentos
de felicidade, mesmo que perdidos, perdurariam continuamente sem serem fugazes lembranças.
E ao simples ritmo de um clique em ►► fast forward as perdas, os choros, as angústias,
desilusões durassem apenas o preciso instante em que as vivemos,
permitindo que em breves segundos ON ou Play nos conduzisse para o momento seguinte da vida,
aquele que seria o primeiro do resto das nossas vidas.
...........
Uma condição se imporia, para salvaguarda da nossa liberdade e tranquilidade: apenas um controle remoto por pessoa, com estrita possibilidade de utilização pelo próprio e absoluta exclusão de manipulação por terceiros.

12-09-2010

Ne me quitte pas - Jacques Brel



Ne me quitte pas, il faut oublier


Tout peut s’oublier qui s’enfuit déjà

Oublier le temps des malentendus

Et le temps perdu à savoir comment

Oublier ces heures qui tuaient parfois

A coups de pourquoi le coeur du bonheur

Ne me quitte pas, ne me quitte pas,

ne me quitte pas



Moi, je t’offrirai des perles de pluie

Venues de pays où il ne pleut pas

Je creuserai la terre, jusqu’ après ma mort

Pour couvrir ton corps d’or et de lumière

Je ferai un domaine où l’amour sera roi

Où l’amour sera loi, où tu seras reine

Ne me quitte pas, ne me quitte pas,

ne me quitte pas



Ne me quitte pas, je t’inventerai

Des mots insensés que tu comprendras

Je te parlerai de ces amants là

Qui ont vu deux fois leurs coeurs s’embraser

Je te raconterai l’histoire de ce roi

Mort de n’avoir pas pu te rencontrer

Ne me quitte pas, ne me quitte pas,

ne me quitte pas



On a vu souvent rejaillir le feuDe l’ancien volcan

qu’on croyait trop vieux

Il est parait-il des terres brûlées

Donnant plus de blé qu’un meilleur avril

Et quand vient le soir pour qu’un ciel flamboie

Le rouge et le noir ne s’épousent-ils pas?

Ne me quitte pas, ne me quitte pas,

ne me quitte pas



Ne me quitte pas je ne vais plus pleurer

Je ne vais plus parler, je me cacherai là

A te regarder danser et sourire

Et à t’écouter chanter et puis rireLaisse-moi

devenir l’ombre de ton ombre

L’ombre de ta main, l’ombre de ton chien

Ne me quitte pas, ne me quitte pas,

ne me quitte pas

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Desencontro - Jorge Sena




Só quem procura sabe como há dias

de imensa paz deserta; pelas ruas

a luz perpassa dividida em duas:

a luz que pousa nas paredes frias,

outra que oscila desenhando estrias

nos corpos ascendentes como luas

suspensas, vagas, deslizantes, nuas,

alheias, recortadas e sombrias.



E nada coexiste. Nenhum gesto

a um gesto corresponde; olhar nenhum

perfura a placidez, como de incesto,


de procurar em vão; em vão desponta

a solidão sem fim, sem nome algum -

- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Poema do Gato - António Gedeão


Quem há-de abrir a porta ao gato

...quando eu morrer?


Sempre que pode

foge prá rua

cheira o passeio

e volta para trás,

mas ao defrontar-se com a porta fechada

(pobre do gato!)

mia com raiva

desesperada.



Deixo-o sofrer

que o sofrimento tem sua paga,

e ele bem sabe.



Quando abro a porta corre para mim

como acorre a mulher aos braços do amante.

Pego-lhe ao colo e acaricio-o

num gesto lento,

vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,

olhos semicerrados, em êxtase,

ronronando.



Repito a festa,

vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.

Ele aperta as maxilas,

cerra os olhos,

abre as narinas,

e rosna,

rosna, deliquescente,

abraça-me

e adormece.



Eu não tenho gato, mas se o tivesse

quem lhe abriria a porta quando eu morresse?