terça-feira, 9 de novembro de 2010

Chuva no Deserto - Menina do Alto da Serra

A manhã sombria trouxe o caudal imenso, infindo de lágrimas


com que o universo por mim chora o ruir de sonhos,

a queda de anjos.

As minhas lágrimas, essas, secaram...não as encontro.

Estranhamente, EU, que sou feita da essência do mar salgado

e da doçura branda dos rios e de plácidas lagoas,

descubro em mim este deserto,

vasto, árido e sem limite de horizonte

no caminho que os meus pés encetam...


.........

Ah, vou deixar-me levar, assim, entre esta tempestade de areia,

sem rumo certo, à deriva do vento.

Na certeza de que, algures, um oásis

esperará por mim e um arco-íris - como o que espreita neste momento

as nuvens que asfixiam o dia - será então,

reflexo da nascente que correr pelos meus olhos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Cabana Junto à Praia - Menina do Alto da Serra

Palheiro secular no areal com vista para o mar- Praia de Mira
Hoje já inexistente.

Sabes, venho contar-te
que a cabana junto à Praia,
Sobre as dunas e canaviais
em frente à qual as gaivotas vinham
ensaiar mil danças no ar,
Que inspirou míticas canções,
Que numa tarde cinzenta
de ínicio de outono,
abrigou duas almas de vagabundo,
naquela tarde em que os raios de Sol
crepuscular romperam por entre
as nuvens para incendiar o horizonte
as suas almas e corações,
JÁ NÃO EXISTE.

Homens que não amam o belo, a história
e a memória desfizeram uma a uma as tábuas que
secularmente a erguiam.

Agora, o areal nú e vazio chora os fantamas
dos Palheiros que um dia abrigaram as vidas
dos homens, mulheres e crianças
que viviam do e para mar.

Eu...eu choro a perda de todos pôr-de-sol em que vi o
os Palheiros em fogo reflectidos no mar...
Mas já não choro a tarde, aquela precisa tarde,
em que ao pousar na tua a minha mão e no teu o meu olhar
me perdi de mim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Segredos inconfessáveis - Fiodor Dostoievski


Entre as recordações que cada um de nós guarda, algumas há que só contamos aos amigos. Há ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que só a nós próprios dizemos e, mesmo assim, no máximo segredo. Finalmente, há coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da existência, toda a pessoa honesta acumulou não poucas destas recordações. Diria mesmo que a quantidade é tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, não foi há muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; até agora evitava fazê-lo, aliás com um certo desassossego. Porém agora, quando as evoco e desejo mesmo anotá-las, agora vou tirar a prova: será possível sermos francos e sinceros, pelo menos com nós próprios, e dizermo-nos toda a verdade?




Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu escrevo só para mim e declaro duma vez por todas que, se pareço dirigir-me ao leitor, é apenas um processo de que me sirvo para maior facilidade.



 in 'Cadernos do Subterrâneo'

Manta de Retalhos - Menina do Alto da Serra


"A minha vida é uma manta de retalhos,

recordações vindas ao acaso,
dos confins da memória,
dispersas e juntas por um único elo condutor:
Eu tê-las Vivido.

A minha vida é um desfiar de recordações
Pequenos quadrados de pano
em que se escondem pedaços de vida,
sem padrão pré-desenhado.


Não poderia nunca ser um filme por
lhe faltar um guião,
Nem um romance com príncipio meio e fim...
Talvez um pequeno livro de crónicas
com páginas impressas ainda em branco,
tantos os fins que estão por escrever...

A minha manta de retalhos,
tem as cores do arco-íris
prevalece o verde esperança e o azul da cor do mar
e é debruada a doirado
na certeza dos reflexos de alegria
que o sol guarda para me dar".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os traços da tua escrita - José Dimas



...Escreves com delicadeza,

Como se a veludo pintasses,

E abarrotam de sentimentos

Os traços da tua escrita,

Reflexo colorido de um interior

Luminoso, e harmonioso.

Revolvo nas entrelinhas

Dos teus textos, e fico

Fascinado,

Envergo a tua escrita

E deleito-me, enquanto viajo

Ao sabor das palavras,

Das tuas palavras…

Nesse mundo só teu,

Que eu invado pela janela

De um verso.

___________

Nov__2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CANTAR MEU PAI - Carlos Jesus Gil




O meu Pai morreu!...

Não, não foi “apenas” mais um pai que morreu.

A coisa não funciona assim…,

Este era o meu!

Por isso é que para mim

são os dias breves

e as noites sem fim;

a alegria omissa

dá lugar à tristeza, que preguiça;

o canto mais belo já não é assim;

a tela que pinto só tem uma cor,

a da dor!


Não, não foi “apenas” mais um pai que morreu.

Este era o meu,

O do meu irmão e da minha irmã;

O Homem de minha mãe;

O avô dos meus sobrinhos!


Tento cantá-Lo…

Tão fácil fosse

como me é lembrá-Lo!...

Tudo o que me sai, porém,

soa pequeno, muito aquém

do Ser Enorme que foi,

do Poema que escreveu

com a vida que viveu…

E isso também me dói!




05/10/2006

Só um Mundo de Amor pode Durar a Vida Inteira - Miguel Esteves Cardoso


" O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também".

in 'Jornal Expresso'