quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
NÃO VÊS O LEÃO DO ZOO?! _ Carlos Jesus Gil
Pedes-me asilo?
Sim, acoito-te.
...Acoito-te
Não te resguardo
Que assim não crias defesas.
Não vês o leão do zoo?!
(Publicado a autorização do autor. A transcrição deve mencionar o autor (Carlos Jesus Gil) e a fonte de publicação)
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Carlos Jesus Gil
Porque me olhas assim..._ Fausto
http://emtonsdeazul2.blogspot.com/2011/01/porque-me-olhas-assim-fausto.html
Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim
porque me rondas assim
Toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
pelo teu toque de mão
soam ventos amenos
pelos mares morenos
do meu coração.
Espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim
porque me tocas assim
e trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaque diferentes
nossa prosa está pronta
dobrando esquinas e gretas
pelo caminho das letras
que tudo o resto não conta
E lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios
e num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa
Dizes-me então que sou teu
que tu és toda pra mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim
porque me beijas assim
por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim
à luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim.
Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim
porque me rondas assim
Toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
pelo teu toque de mão
soam ventos amenos
pelos mares morenos
do meu coração.
Espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim
porque me tocas assim
e trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaque diferentes
nossa prosa está pronta
dobrando esquinas e gretas
pelo caminho das letras
que tudo o resto não conta
E lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios
e num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa
Dizes-me então que sou teu
que tu és toda pra mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim
porque me beijas assim
por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim
à luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim.
palavrasoltas_Álamo de Oliveira
nesta tarde de silêncio segurado
a palavra sai domingueira e falsa.
nada sustenta a noite dos vampiros
e prepara-se a novena duma mulher descalça.
as casas da cidade vão retelhar-se de luar
os cinemas estão vestidos com os cartazes na testa.
grande grande é a nudez da baía
que sem barcos já não quer ir á festa.
e eu escrevo porque não suporto a tarde
e eu escrevo porque gosto de amar.
mas não me lastimem o gosto nem a voz
de verdade eu sei que não sei cantar...
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A Magnólia_Luiza Neto Jorge
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me acolhe
onde a palavra se elide
na matéria — na metáfora —
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me acolhe
onde a palavra se elide
na matéria — na metáfora —
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
Outra Voz_ Mª do Rosário Pedreira
Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria abrir no inverno.
Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto ― a outra voz.
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais que o silêncio ― essa outra voz.
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria abrir no inverno.
Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto ― a outra voz.
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais que o silêncio ― essa outra voz.
Coro dos Velhos do Corvo _ Vasco Pereira da Costa,
![]() |
| Um dia demos as mãos subimos ao pico da ilha. |
Num rochedo fomos gerados pelo amor
da solidão. Nascemos do mar e da pedra.
Meninos brincámos ao tempo o único
brinquedo que nossos avós forjaram
na navalha das noites aluadas.
Éramos a chuva que inundava
nossos pés sem caminhos de andar.
Éramos o vento em correria na vertente
do pico que nos vencia.
Éramos o sol aquecendo nossa pele
de sal ardente e maresia.
Alguns tiveram um barco no silêncio
da viagem para oeste apetecida
e disseram haver e ser atalhos
sem fim e terras sem mar.
Mas ficámos presos ao verde
que atapeta nosso rochedo
e nosso sonho na partida adiada.
Anediámos os úberes das vacas
os seios de uma mulher
os flancos das ove1has.
Apetecemos os pêlos das raízes
o orvalho dos lábios a doçura
das ervas nas manhãs brandas.
Falámos amor num só dia
e calámos. A nossa raiva
num instante emudecida.
Os nossos gestos desperdiçados
numa hora. Depois voltámos
a olhar o mar e éramos
homens no limite da vida.
Revolvemos o caldeirão plantámos
o milho e a novidade soubemos
curar o queijo erguer labaredas
na pá do forno na paz da cozinha.
Criamos filhos no embalo
dos dedos no arame da viola
no baloiço da onda na voz
da mulher que os parira. Que também
eles tinham sido gerados
pela solidão do mar e da pedra.
Um dia demos as mãos
subimos ao pico da ilha.
Aos filhos revelámos a cratera
a lagoa com ilhotas figurando outras
terras de só ter o mar.
Dissemos os verdes diferentes
de ver a chuva o vento o sol.
Apontámos a distinção do céu
e das águas confundidas.
E mostramos um barco para oeste
no murmúrio da viagem incitada.
Ficámos. À navalha raspamos
o tempo para os netos que não temos.
Tropeçamos nos carreiros os passos
que não se dão. Contamos nos degraus
da igreja as palavras ditas
da dita de quem partiu. Desenhamos
no terreiro traços do que calamos
? a única coisa que temos.
E mais a ilha. Cá estamos.
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- Autores Açorianos,
Vasco Pereira da Costa
Gloria Efémera _ António Arnaut
O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que até agora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que até agora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
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