sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O teu nome - Eugénio de Andrade

Tua mãe dava-te nomes pequenos, como se a maré os trouxesse com os caramujos. Ela queria chamar-te afluente-de-junho, púrpura-onde-a-noite-se-lava, branca-vertente-do-trigo, tudo isto apenas numa sílaba. Só ela sabia como se arranjava para o conseguir, meu baiozinho-de-prata-para-pôr-ao-peito.

 Assim te queria. Eu, às vezes.




Eugénio de Andrade, in MEMORIA DE OUTRO RIO, 1976

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu pronuncio o teu nome - Garcia Lorca


Eu pronuncio teu nome

nas noites escuras,

quando vêm os astros

beber na lua

e dormem nas ramagens

das frondes ocultas.

E eu me sinto oco

de paixão e de música.

Louco relógio que canta

mortas horas antigas.



Eu pronuncio teu nome,

nesta noite escura,

e teu nome me soa

mais distante que nunca.

Mais distante que todas as estrelas

e mais dolente que a mansa chuva.



Amar-te-ei como então

alguma vez? Que culpa

tem meu coração?

Se a névoa se esfuma,

que outra paixão me espera?

Será tranqüila e pura?

Se meus dedos pudessem

desfolhar a lua!!

domingo, 10 de outubro de 2010

azorean torpor




Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o mormaço apaga os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: — azorean torpor.


Vitorino Nemésio, Mau tempo no canal,

Lisboa, Bertrand, 1944 (1ª ed.)

sábado, 9 de outubro de 2010

Les Mots - Claude Nougaro



Les mots divins

les mots en vain

les mots de plus

...les motus

les mots pour rire

les mots d'amour

les mots dits, pour te maudire

les mots bruissants, comme des rameaux

les mots ciselés, comme des émaux



la faim des mots

la soif des mots

qui disent quelque chose

les mots chéris qui sur mes lèvres

n'ont pas trouvé

leur place

les mots muets

les mots buées

comme un baiser sur la glace

les mots bouclés

clés de l'espace

les mots oiseaux qui laissent des traces



les mots qui tuent

les mots qui muent

les mots tissant l'émotion

les mots palis

les mots salis

les mots de prédilection

les mots qui te caressent

comme des mains



les mots divin

les mots devin

les premiers mots

la fin

des mots

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nada mais resta que um Outubro...


De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes.
Estou morta na quermesse
dos teus beijos.

Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

...Quando as folhas de melancolia... Herberto Helder




Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.



Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

- eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram. Quando as folhas da melancolia

arrefecem com astros ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.


- E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

- não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.


Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço -

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sonhei Comigo - Eugénia Tabosa


Sonhei comigo

...esta noite

Vi-me ao comprido

Deitada

Tinha estrelas

nos cabelos

em meus olhos

madrugadas

Sonhei comigo

esta noite

como queria

ser sonhada

Senti o calor da mão

percorrendo uma guitarra

De longe vinha um gemido

uma voz desabalada

Havia um campo

de trigo

um sol forte

me abrasava.

E acordei

meio sonhando

procurando

me encontrar

Quando me via

ao espelho

era teu

o meu olhar.